
Bruta @ MindSay 

Quando ingressou no Instituto Nacional de Cinema e Educação (INCE) em 1937, Humberto Mauro já havia inscrito seu nome na história do cinema brasileiro. Natural de Volta Grande – pequena cidade na região da Zona da Mata mineira –, ele fundou a produtora Phebo Sul América (mais tarde rebatizada como Phebo Brasil Film de Cataguases); que foi palco de suas primeiras experiências cinematográficas. As produções, de baixo orçamento, eram realizadas com um elenco formado por amadores. Sempre em contato com a natureza, os filmes retratavam o Brasil interiorano tão familiar ao diretor.
Em 1933, Mauro realiza o filme que o consagraria: “Ganga Bruta”. Numa trama que radiografa a sociedade da época, um homem mata sua esposa – por uma questão de honra – na noite de núpcias. Após enriquecer na indústria, ele apaixona-se por uma jovem inocente. Com trilha composta por Radamés Gnatalli, o cineasta abusa de elementos cenográficos para imprimir um clima onde predomina a sensualidade, a violência urbana e a repressão sexual. A ousadia da proposta não entusiasmou os críticos brasileiros de então.
Gustavo Capanema (ministro da Educação e Cultura do governo Vargas) delega a Edgar Roquete Pinto a criação do INCE em 1936; com o intuito de difundir, através do cinema, uma educação que exaltasse o patriotismo dos cidadãos e os valores que o Estado Novo julgavam fundamentais. As criações do Instituto, evidentemente, não versavam sobre questões sensíveis ao governo – como a reforma agrária e/ou a exclusão dos trabalhadores camponeses.
Durante quase três décadas de serviços prestados ao INCE (onde Mauro se aposentou em 1964), o diretor realizou mais de 300 curtas-metragens. Os temas abordados eram dos mais variados: astronomia, arte, agricultura, dança, divulgação de campanhas de higiene e saúde, culto às tradições (muitas delas inventadas) e aos “heróis” nacionais... Um exemplo das produções institucionais da série Brasilianas – criadas sob a batuta governamental – é o excelente “A Velha a Fiar”, de 1960.
Partindo da canção popular de mesmo nome, o cineasta recria na tela a interação dos animais e dos seres que “fazem mal” uns aos outros. Nos créditos iniciais, temos algumas imagens bucólicas da vida rural: os costumes do campo, a divisão dos trabalhos domésticos na fazenda (as mulheres lavando roupa e os homens cuidando dos bois); sendo introduzidos os animais que farão parte do filme. A canção – interpretada pelo Trio Irakitan – começa assim que a velha, sentada numa roca, aparece. Devido à montagem ágil, este curta é considerado um pioneiro dos videoclipes contemporâneos. Curiosidade: não encontrando uma idosa adequada para o papel, o diretor convidou Matheus Collaço, seu amigo, para interpretar a velha.
Além de precursor do Cinema Novo, Humberto Mauro é reconhecido mundialmente como um grande inovador da linguagem cinematográfica. Em 1967, ele colaborou com Nelson Pereira dos Santos em “Como Era Gostoso o Meu Francês” (escrevendo os diálogos em tupi do filme). O diretor mineiro faleceu em 05 de novembro de 1983, aos 86 anos de idade.
ASSISTA:
A Velha a Fiar, de Humberto Mauro (1960)
LEIA:
Os Brasis do Mais Brasileiro dos Cineastas
