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Se os anos 90 forem os novos anos 80 (conforme se aventa por estas plagas), em breve relembraremos das pérolas elencadas a seguir:
• Locomia - Umas das sensações do início dos 90 foi o grupo espanhol Locomia. Formado por Xavier Font (único homossexual assumido da trupe, que depois foi substituído por Francesc Picas), Manuel Arjona, Carlos Armas e Juan Antonio Fuentes (que, posteriormente, cederia o posto a Santos Blanco), eles atuavam de maneira informal na discoteca “Ku”, em Ibiza, desde 1984. Suas apresentações já contavam com os leques que os caracterizariam. Descobertos pela EMI e fixados em Madri, os rapazes lançam em 1989 o auto-intitulado hit “Locomia”, que vira uma febre. Mesmo tidos como gays, as mulheres iam à loucura. Chegaram a vender três milhões de discos com canções extremamente comerciais. No final de 1992, os membros originais se separam.
• Salt-N-Pepa - Com o lançamento do álbum “Very Necessary” em 1993, o trio Salt-N-Pepa atinge o auge. Formado por três garotas do Queens, em Nova York, elas eram as únicas mulheres no meio do hip hop americano em fins dos 80 e começo dos 90. O grupo – formado por Cheryl James (Salt), Sandra Denton (Pepa) e a DJ Deidra "Dee Dee" Roper (Spinderella) – vendeu mais de 15 milhões de discos ao redor do mundo. "Whatta Man", um dueto com o grupo En Vogue, alcançou o 3° lugar nas paradas de R&B em 1994. “None of Your Business" garantiu às garotas o Grammy de Melhor Performance de Rap em 1995. Entretanto, o maior sucesso do disco foi “Shoop”, que trazia os seguintes versos: “Then I flipped for a tip / Make me wanna do tricks for him / Lick him like a lollipop should be licked”. Precisa de tradução?
• Vanilla Ice - Pseudônimo do americano Robert Matthew Van Winkle. Em 1990, a gravadora SBK lança o álbum “To the Extreme”. O single “Ice Ice Baby” chega ao topo das paradas da Billboard; introduzindo o hip hop a uma nova audiência. A turnê de promoção do disco trazia a cantora Alanis Morissette – então com 16 anos – fazendo o show de abertura. Foi um tremendo sucesso comercial. No mesmo ano, Vanilla Ice teve um romance de oito meses com Madonna (aparecendo em “Sex”, o livro de fotografias dela) e ainda foi processado por David Bowie e pela dupla Brian May e Roger Taylor, do Queen (pois Van Winkle sampleou sem autorização a melodia-base de “Under Pressure”, que gerava toda a canção “Ice Ice Baby”). O processo acabou sendo arquivado. Em 1991, também foi lançada a falsa autobiografia “Ice by Ice: The Vanilla Ice Story in His Own Words”, com dados biográficos fictícios.
• Milli Vanilli - Em 1990, estoura a farsa criada por Frank Farian. O produtor alemão gravou, dois anos antes, um álbum com os músicos Charles Shaw, John Davis e Brad Howell. Porém, colocou na capa os modelos Fab Morvan e Rob Pilatus (contratados para fazerem playback das músicas em apresentações e arrebatarem o público feminino). A estréia do Milli Vanilli, “All or Nothing”, foi remixada e relançada nos Estados Unidos com o título de “Girl You Know It's True”. Eles levam para casa o Grammy de Melhor Artista Estreante em fevereiro de 1990 pela canção “Girl You Know It's True”. Em novembro, as dúvidas sobre a dupla crescem e Farian admite que Rob e Fab não cantavam no disco. Como resultado da pressão exercida pela mídia norte-americana, o Grammy que receberam foi cancelado e a gravadora Arista os retirou de seu cast. O álbum teve a fita master apagada.
• Jordy Lemoine - Nascido em 1988, o garoto francês entrou para o Guinness Book com apenas quatro anos de idade; tornando-se o mais jovem na história a ter um hit no primeiro lugar das paradas. Seus pais eram Claude Lemoine (um produtor musical) e Patricia Clerget (cantora e compositora, que lançou alguns discos nos anos 80). Na época em que começou a andar, Jordy acompanhava músicas do cancioneiro francês e era atração nas festas familiares. Logo surge a idéia de transformá-lo num artista comercial. A Columbia lança "Dur Dur D'Être Bébé" em 1992. Alcançando o topo das paradas francesas, o single vendeu 2 milhões de cópias. O fenômeno de vendas chegou a desembarcar no Brasil para dublar suas músicas nos programas de Hebe Camargo, Faustão e Gugu Liberato. Claude e Patrícia foram acusados de exploração infantil por tentarem capitalizar o sucesso do filho. A maré de boa sorte termina em 1996, com o divórcio dos pais.
• Scatman John - Impossível não simpatizar com John Paul Larkin, o Scatman John (também conhecido internacionalmente como John Scatman). Aos 12 anos, o americano gago começa a aprender piano e é introduzido na arte do “scat singing” através de gravações de Ella Fitzgerald e Louis Armstrong. Chegou a lançar um álbum jazzístico nos anos 80. Em 1990, muda-se para Berlim e continua atuando como pianista de jazz em cruzeiros marítimos, clubes e bares alemães; sendo ovacionado ao incluir canções nas apresentações instrumentais. Nesse mesmo período, seu agente sugere a combinação do “scat singing” com a moderna música eletrônica. Mesmo reticente, Larkin trabalha com Ingo Kays e Tony Catania – produtores de dance music – e a BMG lança o single "Scatman (Ski-Ba-Bop-Ba-Dop-Bop)" em 1994. Esta canção foi criada com o intuito de inspirar crianças que gaguejavam a superar o problema. Ele adota o pseudônimo de Scatman John e, em 1995, aos 52 anos de idade, transforma-se numa estrela mundial. Seu single de estréia vendeu mais de seis milhões de cópias. Infelizmente, Larkin morreu de câncer no pulmão em 1999.
Enfim, haverá uma corrida aos sebos – particularmente às seções de vinis em promoção (naquelas onde, por um real e/ou 50 centavos, você leva para casa todas essas preciosidades).
O amanhã é o novo ontem.
ASSISTA:
Milli Vanilli - Girl, I’m Gonna Miss You
Jordy Lemoine - Dur Dur D'Être Bébé
Scatman John - Scatman’s World

Hollywood, 1941. Carmen Miranda havia rodado as últimas cenas de "Aconteceu em Havana". No camarim, a estrela retira a calcinha (presa por colchetes, que a incomodava) e olha fixamente para o teto, descansando. Frank Powolny – fotógrafo da Twentieth Century Fox – bate à porta e avisa que precisa de mais algumas poses da diva com Cesar Romero, seu parceiro de dança no filme, para completar o material de divulgação. Ela retorna rapidamente ao palco; esquecendo-se que estava sem calcinha. Durante um rodopio, a saia de lamê dourado fica presa e as lentes de Powolny registram a vagina de Carmen.
Os técnicos do laboratório da Fox revelaram o filme e logo perceberam a gafe. Naquela época, a política dos estúdios era preservar ao máximo os artistas (o que significava destruir qualquer foto que expusesse seus contratados em situação vexatória). Entretanto, uma cópia do negativo foi surrupiada do laboratório. Ainda demorou um ano para a fotografia estampar oficinas de carros, postos de gasolina e bares de estrada. Acionado pela Fox, o FBI tirou de circulação todo o material que encontrou.
Em julho de 1942, a imagem foi publicada na capa da revista “True Police Cases”. Havia uma tarja cobrindo a genitália exposta e também uma inscrição: “Quanto valem as estrelas de Hollywood no mercado de fotos imorais”. Numa sociedade americana quadrada e repleta de convenções, aquele incidente poderia acabar com a carreira da estrela. Mas a Fox apoiou Carmen Miranda e o fato não manchou sua reputação.
Essa curiosidade é contada (mas não exibida) em “Carmen – Uma Biografia”, de Ruy Castro.
VEJA:
ASSISTA:
OUÇA:
Carmen Miranda – E o Mundo Não Se Acabou

Quem nunca ouviu falar em Ronald Biggs? A história do ladrão inglês está intimamente ligada com nosso país: em 1963, junto com alguns comparsas, ele assaltou o trem pagador que seguia de Glasgow até Londres. Estima-se que o bando tenha levado 2,6 milhões de libras. Conhecido como o assalto do século, o crime foi cometido sem nenhum disparo de arma de fogo – e sem nenhuma vítima fatal.
No começo de 1964, Biggs é preso e condenado a 30 anos de prisão. Ele cumpriu apenas 15 meses da pena na penitenciária de Wandsworth, no sul de Londres. Após fugir da prisão, Ronnie passou por cirurgia plástica, assumiu identidades falsas e viveu em diversos países até desembarcar no Rio de Janeiro em março de 1970 (motivado pelo fato do Brasil não possuir tratado de extradição com o Reino Unido). Aqui, o ladrão inglês constituiu família com Raimunda Nascimento de Castro. O casal teve um filho: Michael “Mike” Biggs que, anos depois, integraria o conjunto Balão Mágico.
Biggs virou atração turística na cidade e sempre atendia aqueles que o procuravam; cobrando 50 dólares por cada foto tirada com um turista. Em seu livro de fotografias, “I’ll Be Watching You – Inside the Police (1980-83)”, o guitarrista Andy Summers incluiu algumas imagens do grupo ao lado de Ronnie e do pequeno Mike – quando eles vieram ao país para se apresentar no Ginásio do Maracanãzinho, em 1982. E reza a lenda que Ozzy Osbourne também o visitou em janeiro de 1985, durante a primeira edição do Rock in Rio.
A incursão do ladrão inglês na música teve início em 1974. Biggs convidou seu amigo Bruce Henri (baixista do Soma que, naquele mesmo ano, havia participado do disco/show “O Banquete dos Mendigos” com a música “P.F.”) a criar a trilha sonora para um filme baseado em sua vida. Henri topou e, junto com os músicos Jaime Shields (guitarra), Nivaldo Ornellas (flauta, sax e clarinete) e Áureo de Souza (bateria) gravaram as canções de “Mailbag Blues – Ronnie Biggs’ Story”. O nome do álbum faz menção à cantoria dos presos londrinos que, no presídio, eram mantidos ocupados costurando sacos de correio.
Registrado num pequeno estúdio de 4 canais localizado no Leblon, o disco traz uma fusão do jazz com o rock. Todas as faixas são instrumentais e a produção é creditada a Ronald Biggs e Bruce Henri. As nove músicas – com títulos como “London ‘63”, “Courtyard Strut”, “New Dawn” e “Liberdade” – foram compostas pela dupla Henri/Shields. Segundo Henri, eles não permitiram que Biggs cantasse porque ele tinha uma “voz horrível”. O filme nunca foi rodado e várias gravadoras recusaram o lançamento de “Mailbag Blues” (pois nenhuma companhia queria estar associada à figura controversa de Ronnie).
Na década de 1990, Bruce recebeu do proprietário do estúdio a master daquelas gravações. O selo inglês Whatmusic editou o disco em 2004 e o lançamento chegou a ser resenhado na seção “Filter – Buried Treasure” da revista Mojo.
Em 1978, ocorreria a maior colaboração de Biggs no universo musical: as gravações com Steve Jones (guitarra) e Paul Cook (bateria), membros do recém-finado Sex Pistols. A dupla passou quase um mês no Rio, gravando “No One is Innocent” – também conhecida como “The Biggest Blow – A Punk Prayer”, composta por Ronnie – e “Belsen was a Gas”; enquanto o cineasta Julien Temple registrava cenas para o filme “The Great Rock'N'Roll Swindle” (arquitetado por Malcolm McLaren). As sessões em estúdio no Brasil aconteceram pouco depois da última apresentação dos Pistols.
A passagem pelo Rio de Janeiro ainda rendeu boas histórias: Jones e Cook foram a um show de Raul Seixas no Teatro Tereza Rachel, em Copacabana, e saíram no meio (porque acharam uma porcaria) e Malcolm sofreu um acidente de trânsito, batendo o Fusca que ele mesmo dirigia em um poste – o empresário, aliás, levou alguns pontos num pronto-socorro carioca.
“Conheci os meninos a pedido de Malcolm, que queria que eu escrevesse uma letra para eles. Daí surgiu ‘No One is Innocent’. Me pagaram 2 mil dólares e disseram que era ‘para uma coisinha caseira, à toa’. Depois descobri que a tal coisinha tinha vendido quase oito milhões de cópias”, relembra o ladrão inglês em entrevista à Showbizz (edição 133, nº 8, AGO/1996). “Malcolm é um pilantra fodido. Eles vieram na minha casa em Sepetiba e me chamaram para ‘join in the fun’ (juntar-se à diversão). Entrei, cantei e me pagaram mil doletas pela participação no filme”.
Já em 1991, foi a vez dos alemães do Die Toten Hosen desembarcarem no Rio para gravar com Biggs. Ele compôs a música “Carnival in Rio (Punk Was)”, lançada num single que também incluía uma nova versão de “No One is Innocent” e ainda “Police on my Back” (gravada originalmente pelo Clash). O videoclipe de “Carnival in Rio” foi rodado com câmeras emprestadas – pois a alfândega brasileira exigiu uma taxa muito alta para liberar o equipamento de filmagens deles – e traz cenas curiosas da banda, acompanhada por Ronnie, passeando nos arcos da Lapa e no bondinho de Santa Teresa. Durante a turnê do álbum “Learning English, Lesson One”, o Die Toten Hosen voltou ao Brasil e se apresentou no bar do ladrão inglês.
Ronald Biggs gravou para o selo Rock It!, de Dado Villa-Lobos (ex-guitarrista do Legião Urbana) um single em 2001, que continha a faixa “Run 2 Rio (Edu K Remix)” e uma versão de “Police and Thieves” (novamente do Clash); onde Biggs manda um recado para aqueles que sempre o perseguiram: “Vai pra puta que o pariu!” – dito em bom português! No mesmo ano, no dia 05 de maio, o The Sun anunciava a volta de Ronnie ao Reino Unido. O tablóide sensacionalista enviou um jatinho ao Rio de Janeiro especialmente para buscá-lo (em troca da exclusividade da história que, segundo consta, teria custado 44,000 libras). Ele foi preso assim que desembarcou na Inglaterra.
Em agosto passado, Jack Straw – ministro da Justiça do Reino Unido – anunciou a libertação do ladrão inglês. A saúde dele (agora com 80 anos) se deteriorou bastante desde o retorno voluntário a seu país de origem. Ele já quase não fala e ainda recebe alimentação por meio de uma sonda. Nos últimos anos, Biggs foi vítima de uma série de ataques cardíacos, derrames e crises epilépticas. O fim de Ronnie parece estar cada vez mais próximo.
LEIA:
– O Mais Procurado dos Homens, Collin Mackenzie, Nova Época Editorial, 1976.
– Eu Sou Mike Biggs – A Liberdade de Meu Pai, Maria Emilia Pickston, Rio Enterprises, 1983.
ASSISTA:
Sex Pistols e Ronald Biggs – No One is Innocent
Die Toten Hosen e Ronald Biggs – Carnival in Rio (Punk Was)
Entrevista com Ronald Biggs em 1994
OUÇA:
Ronald Biggs – Run 2 Rio (Edu K Remix)
Ronald Biggs – Police and Thieves
Alguém é capaz de responder o que Johnny Depp, Keanu Reeves e Russell Crowe têm em comum? Poucos sabem que, além de serem astros hollywoodianos bem-sucedidos, os três compartilham uma paixão: a música. Se alguns migraram até para a política (vide Ronald Reagan e Arnold Schwarzenegger), não faltam exemplos de atores que entraram de cabeça na indústria musical.
Talvez o mais celebrado de todos seja o encontro de Serge Gainsbourg com as atrizes Brigitte Bardot e Jane Birkin. Na época em que namorou com Bardot, em meados da década de 1960, o lendário músico sugeriu que eles gravassem juntos a canção “Je t’Aime... Moi Non Plus”. A grande musa do cinema francês consentiu e a faixa foi registrada em dezembro de 1967. Posteriormente, Bardot temeu a repercussão do dueto e recuou; o que obrigou Gainsbourg a não lançar a música. Mais tarde, ele regrava “Je t’Aime” com Birkin e, ao lado da atriz inglesa, produz o disco em parceria “Jane Birkin et Serge Gainsbourg”, lançado em 1969. Era o início do relacionamento entre os dois. Jane Birkin e Serge Gainsbourg
Já a filha do badalado casal, Charlotte Gainsbourg, não nega as origens familiares. Atriz como a mãe (tendo recebido, recentemente, o principal prêmio feminino em Cannes, por sua interpretação em “Anticristo”, de Lars Von Trier), ela também exibe seu talento musical. Desde que Madonna incluiu alguns trechos de sua voz – extraídos do filme “The Cement Garden” – na introdução de “What it Feels Like for a Girl” (do álbum “Music”, de 2000), Charlotte tomou gosto pela coisa e resolveu lançar seu disco de estréia, “5:55”, em 2006. E a filha de Jane Birkin e Serge Gainsbourg já prepara o próximo, que tem lançamento previsto para o fim do ano...
Depois de gravar “Little Baby Nothing” com o Manic Street Preachers (canção do álbum “Generation Terrorists”, de 1992) e “Somebody to Love” com os Ramones (cover do grupo sessentista Jefferson Airplane, incluída no álbum “Acid Eaters”, de 1993), a ex-atriz pornô Traci Lords lança o disco “1000 Fires” em 1995. A sonoridade é exclusivamente eletrônica e todas as letras fazem alusão a sexo. Em “Fallen Angel”, por exemplo, ela diz: “We’re all dancing in the darkness/ Don’t shut out the light/ I want so bad to ease your pain/ On the inside” (Nós todos estamos dançando na escuridão/ Não apague a luz/ Eu quero tanto aliviar a sua dor/ Por dentro).
Quem também deu o que falar foi Gillian Anderson – a eterna agente Scully da série de TV Arquivo X. Em parceria com o trio Hal, ela gravou a canção “Extremis” em 1997 (que foi lançada em CD single). A idéia da gravação surgiu quando Gillian apresentou o documentário “Future Fantastic” na BBC; cuja trilha foi composta pelo Hal. Tanto na letra de “Extremis” quanto no videoclipe, ela exibe uma faceta sensual até então desconhecida. A faixa ainda fez parte do CD “Future: A Journey through the Electronic Underground – Disc 1” (Virgin Records), que teve toda a seleção musical escolhida por Gillian.
E é de Vincent Price a narração que ouvimos em “The Black Widow”, de Alice Cooper (inclusa no álbum “Welcome to my Nightmare”, de 1975). Entretanto, a participação mais conhecida de Price no mundo da música – um dos maiores atores do cinema de horror – foi na clássica “Thriller”, de Michael Jackson (lançada em 1982). E vale esclarecer que não é Vincent Price quem narra a abertura de “The Number of the Beast”, do Iron Maiden! O ator chegou a ser convidado para a tarefa mas, segundo a própria banda, cobrou um cachê altíssimo – e acabou sendo substituído por um cara chamado Barry Clayton, que imitou sua indefectível voz.
Outro grande nome do cinema que também fez locuções em discos foi Orson Welles. O diretor colaborou em duas canções da banda Manowar: “Dark Avenger” (lançada no álbum “Battle Hymns", de 1982) e “Defender” (faixa de “Fighting the World”, lançada em 1987). O produtor e instrumentista Alan Parsons preparava “Tales of Mystery and Imagination” em 1976 – LP conceitual que homenageia o escritor americano Edgar Allan Poe. Chamado para participar, Welles fica de fora da empreitada por não enviar a tempo sua gravação. Porém, Parsons remixou o trabalho em 1987, com a mesma seqüência do lançamento original, e finalmente incluiu a voz do diretor (que declama os poemas “A Dream Within a Dream” e “Prelude”).
Mas a tendência de atores fazendo música também rendeu frutos aqui no Brasil! Claramente influenciados por Gainsbourg, o 3 na Massa – projeto paralelo de Pupillo e Dengue (da Nação Zumbi) com Rica Amabis (do coletivo Instituto) – lançou, no ano passado, o CD “Na Confraria das Sedutoras”. Todas as composições são interpretadas por mulheres e, entre as convidadas, estão as atrizes Alice Braga, Simone Spoladore e Leandra Leal. Já o ator Wagner Moura é vocalista de uma banda chamada Sua Mãe. Como só ocorrem ensaios anuais, tudo indica que o grupo é apenas um passatempo.
OUÇA:
Jane Birkin & Serge Gainsbourg - Je t'Aime... Moi Non PlusCharlotte Gainsbourg - Morning Songs
Gillian Anderson e Hal - Extremis
Vincent Price – Thriller’s Voice Over
Alan Parsons Project e Orson Welles - A Dream Within a Dream
3 na Massa e Simone Spoladore - Pecadora

Embora sem datar com precisão, Ayrton Mugnaini Jr. relata o encontro histórico entre Hilda Hilst e Adoniran Barbosa no livro "Adoniran, Dá Licença de Contar..." (Editora 34). Ao mesmo tempo em que concluiu o curso de direito na Faculdade do Largo São Francisco, no centro de São Paulo, Hilda estréia sua carreira literária com o lançamento de “Presságios”, em 1950. No ano seguinte, sai “Balada de Alzira” – que traz o poema “Bem o Quisera”.
Nessa década, o compositor João Rubinato já era Adoniran (alcunha que adotou porque “cantar samba com nome italiano, não dá”, segundo declaração do próprio). No entanto, a consolidação da fama aconteceria ao iniciar a parceria com os Demônios da Garoa – grupo que participou, ao lado de Adoniran, das filmagens de “O Cangaceiro”, de Lima Barreto.
O autor de “Saudosa Maloca” leu o segundo livro de Hilda Hilst e ficou encantado com “Bem o Quisera”; que ele considerava um dos versos mais perfeitos já escritos na língua portuguesa. Em meados dos anos 50, Adoniran liga para a escritora e sugere um encontro – pois ele planejava musicar alguns poemas dela e queria tratar do assunto pessoalmente. A conversa entre os dois, bastante descontraída, ocorre no bar do Hotel Jaraguá, localizado na capital paulista. Como Hilda tinha dúvidas se seus versos dariam boas canções, Adoniran pediu que ela criasse, naquele exato momento, alguns poemas. Na mesa do bar, Hilda escreve “Só Tenho a Ti”, “Quando Te Achei” e “Quando Tu Passas por Mim”.
Em 1956, a escritora ouve “Quando Te Achei” na voz da cantora Morgana, que diz:
“Quando te achei
Só eu poderia te amar
Como te amei
Quando te achei
Havia tanta coisa pra te dar
Havia lua cheia sobre o mar
Havia espanto e amor no meu olhar
Havia a minha voz vazia
Meus vinte anos de espera
E grande melancolia
Quando te achei
Só eu poderia te amar
Como te amei”.
Justiça seja feita: foi Adoniran Barbosa quem introduziu Hilda Hilst no universo musical. Posteriormente, ela ainda teria versos musicados por nomes como Gilberto Mendes e Almeida Prado.
OUÇA:
Adoniran Barbosa - Só Tenho a Ti (trecho)Elza Laranjeira - Quando Te Achei (trecho)
Léo Scartezzine interpreta Hilda Hilst
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