Sonha em criar o neto que não conhece. Mas não está a ser nada fácil.
Sou uma pobre mãe, que muito sofreu para criar cinco filhos, a mais nova com a doença celíaca que é muito cara e não tem comparticipação do Estado.
Quiz o destino que sofresse o maior dos golpes que a vida nos pode dar, que é perder um filho. Foi assassinado por dois ladrões, num assalto. No funeral dele, vim a saber que tinha deixado a namorada grávida. A minha filha mais velha também esperava bébé, mas perdeu-o com o choque da morte do irmão.
Com muita dor no coração fui procurar a minha nora e oferecer-lhe a minha ajuda, em tudo o que me fosse possível. Mas o pai dela estava em Londres e chamou-a para lá, onde teve o meu netinho. Entretanto, por motivos de droga, ela ficou sem o menino, que foi entregue a uma tia.
Essa senhora quer dar-me o bébé para criar, mas está muito difícil tratar da documentação. Já fui à Segurança Social, mas preciso de advogado e não tenho dinheiro para isso. Aqui em Portugal é assim, só quem tem dinheiro é que consegue alguma coisa. Os pobres, esses, só têm direito a ficar cada vez mais pobres. Eu podia ficar mais rica se trouxesse o meu netinho para cá, para lhe dar todo o amor de avó que tenho para ele. O menino tinha, aliás, esse direito, por tudo o que já deve ter sofrido (foi encontrado a dormir no chão, ao pé da cocaína da mãe). Gostava de, pelo menos, ir vê-lo a Inglaterra e levar-lhe roupas e brinquedos, mas o meu ordenado de pouco mais de 400 euros não me permite realizar esse sonho.
Arminda Ferreira, de Lisboa
In Revista TeleNovelas Nr. 386 (13 a 19 JUN 2005)
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