Miller, Sul de Minas. Casa de Tio Baca.

 

- É melhor acordar, meninos.

 

- O que aconteceu? – perguntou Ian, assustado com seu súbito despertar.

 

Tio Baca estava com o jornal Miller Commerce dobrado em uma de suas mãos. Ele abriu-o e leu o que parecia ser a principal manchete do dia:

 

- “Jovens meliantes matam homem em Bacamarte.” Está neste e em todos os jornais da região.

 

Com certa irritação (ele detestava acordar cedo), Ian sentou-se na cama e olhou para a edição do Miller Commerce que Tio Baca mostrava.

 

- E o que isso tem a ver com...  Porra!

 

Ian Abercrombie viu seu rosto e o de Eric Norton estampados na primeira página.

 

- Como isso aconteceu? – perguntou Eric, igualmente espantado.

 

- Não sei. Mas suspeito que exista envolvimento do outro irmão Abercrombie. – disse Tio Baca calmamente. Ele parecia querer evitar maiores exaltações.

 

- Alden deve ter armado para nós. Ele com certeza pode fazer isso. – disse Ian.

 

- Aqui diz que a polícia tem um vídeo provando nosso envolvimento. – Eric havia pegado o jornal para ler a matéria por completo.

 

- Outra artimanha dele. Droga! Eu sabia que voltar ao Brazzil havia sido uma má idéia.

 

- Não tem apenas um vídeo, mas também digitais, DNA, tudo... Ele fez um ótimo trabalho. – disse Eric, dobrando o jornal após ter desistido de ler o resto. Ele viu as palavras “ritual satânico” tentando explicar a razão do homicídio, e não teve estômago para continuar.

 

- E agora?  Nosso plano de combatê-lo foi por água abaixo antes mesmo de começarmos. – perguntou Ian.

 

- Vocês devem continuar seguindo o plano. Alden quer exatamente isso: assustá-los até o ponto de fazerem uma besteira ou desistirem.

 

- Acho que uma grande besteira nesse ponto seria não desistir. – disse Ian, tentando fazer Tio Baca ouvir a voz da razão.

 

- E para onde você iria, Ian? Vai voltar para a Europa ou dessa vez irá para um lugar ainda mais distante? – disse Tio Baca.

 

- ...

 

- Fugir não é a solução. Nunca foi. O que vocês precisam fazer é seguir minhas recomendações. Eric, a essa altura Betto já deve estar em seu encalço para esclarecer o caso. Você deve explicar tudo para ele, nos mínimos detalhes. Ele irá acreditar, e ficará do seu lado. Já alertei Guil e Ror-Rê. Eles estão a caminho.

 

- Devo partir agora? – perguntou Eric.

 

- Imediatamente. – Eric calçou os sapatos e saiu do quarto em que estavam dormindo sem pestanejar. – Ian, você fica aqui. Você precisa cuidar de suas feridas. E assistir a um vídeo.

 

- O que? – perguntou ele, ainda mais perplexo.

 

- Você precisa de orientação, Ian. O seu treinamento com Pirer foi apenas o primeiro estágio de seu aprendizado.

 

Bacamarte, Sul de Minas. Chefatura de Polícia.

 

Entrevista coletiva da agente da especial da BIA Kate Sinatra.

 

- Srta. Sinatra, você pode nos dar uma declaração sobre o caso Abercrombie/Norton?

 

- Bom dia, senhoras e senhores. Há quatro dias, um corpo foi encontrado dilacerado aqui na cidade de Bacamarte. As evidências sugeriram que a vítima havia sido atacada por um animal feroz. Vinte quatro horas depois, outro corpo foi achado, dessa vez com um braço decepado. Esse modus operandi, apesar de aparentemente incomum, foi relatado em 23 outras cidades do Brazzil nos últimos quatro anos. Duas ou três vítimas brutalmente assassinadas em um intervalo de tempo de doze a 24 horas, seguidas por um outro corpo achado com um dos braços decepados.

Acreditamos que esses homicídios façam parte de rituais satânicos promovidos por Eric Orwell Norton e Ian Miguel Abercrombie, dois jovens desajustados que haviam desaparecido há certo tempo. Ian, irmão mais novo do industrial Alden Abercrombie, sumira há cinco anos, logo depois de seu décimo-oitavo aniversário.  Já Norton morou em várias cidades, sem nunca ter uma ocupação ou moradia fixa, até sumir completamente da face da Terra há cinco meses.  Os desaparecimentos dos dois nos períodos dos assassinatos anteriores, aliados às provas circunstanciais que recolhemos nesses novos crimes nos fazem concluir, portanto, que eles são os perpetradores dessa série de crimes hediondos.

A BIA está, a partir desse momento, assumindo as investigações do caso Abercrombie/Norton. Nós não pouparemos esforços para esclarecer minuciosamente o que aconteceu, e capturá-los para que a justiça seja feita. Isso é tudo por hoje, obrigada.

 

 

Miller, Sul de Minas. Casa de Tio Baca.

 

Ian estava sentado em frente à televisão na sala de estar, boquiaberto com o que acabara de ver.

 

- Sou procurado por mais de cinqüenta assassinatos!

 

- Não se apoquente com isso, não ainda, não agora.  Você precisa ver isso aqui.

 

- O que é isso?

 

Tio Baca colocou uma fita no seu quase pré-histórico vídeo cassete, e apertou play.  Na tela, surgiu um letreiro em preto-e-branco que dizia “orientação”.

Em seguida, um homem asiático surgiu vestindo um jaleco branco. Atrás dele, apenas um fundo igualmente branco.

 

- Olá. Eu sou o Doutor Marvin Kolleritz. Este é o primeiro vídeo de orientação que você, Ian Miguel Abercrombie, irá assistir para iniciar seu treinamento nas artes de salvar o mundo.

 

- Como ele...

 

- Shh! – disse Tio Baca, extremamente concentrado.

 

- Primeiramente, devo dizer que esse vídeo se adapta a cada indivíduo que o assiste. Por isso, não estranhe, isso não é um engodo; é apenas a programação intrínseca dele que está sendo seguida.

Mas vamos ao que interessa. Para salvar o mundo, você precisa entendê-lo e apreciá-lo. Essa é uma tarefa extremamente árdua, pois poucas pessoas se propõem a seguir o caminho que leva a esse nível de esclarecimento. A maior parte prefere deixar-se consumir pela entropia, aguardando o fim de sua existência insatisfatória. Eles não percebem que fazem parte do mundo. Eles não percebem que o constroem a cada ação, por menor que seja. Eles não percebem que podem salvá-lo se quiserem.  Você, Ian, passou tempo demais escondido, fugindo dessas responsabilidades. Se decidir continuar assim, pode apertar stop; nada acontecerá e você voltará a sua vida normal. Vou dar um tempo para que possa pensar.

 

Ian apenas olhou fixamente a tela, indeciso. Por fim, lembrou-se da conversa que tivera na noite anterior com Eric, e decidiu dar seu salto de fé.

 

- Continue.

 

- Muito bem. Sua primeira lição é: os universos que compõem o Multiverso não são paralelos. Eles convergem, todos os eles, em um ponto, apenas um. E esse ponto pode ser acessado por meio dos sonhos.  Lembre-se disso.

Isso é tudo por hoje. Namasté. E boa sorte.

 

A tela ficou toda preta, subitamente. Ian olhou para o lado, e viu Tio Baca acompanhado por dois outros homens. Ambos eram baixos, mas um deles era careca enquanto o outro tinha cabelos pretos muito volumosos.

 

- Ian, esses são Guil – disse Tio Baca, apontando para o que era careca. – e Ror-Rê. Eles estão aqui para acompanhá-lo.

 

- Acompanhar-me para onde?

 

- Para o mundo dos sonhos. – disse Guil. – Você precisa tornar-se um onironauta antes de continuar sua jornada.

 

Ror-Rê colocou sua mão direita dentro de seu emaranhado de cabelos e de lá tirou uma caixa de madeira.

 

- Como...  –perguntou Ian, intrigado com o estranho fenômeno.

 

- Shh... – disse Ror-Rê, tirando um pó metálico da caixa e soprando-o na direção de Ian. – Durma. Sonhe. Nos veremos do outro lado do espelho.

 

 
   

 


 
 

 
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